Caminho Coop

Um Corpo Consciente num Mundo Digital

Entre os dias 23 de maio e 1 de junho de 2025, tivemos a oportunidade de participar no Training Course “Conscious Bodies: E-ntimacy”, realizado em Tivoli, Itália, no âmbito do programa Erasmus+. Esta iniciativa foi promovida pela organização não-governamental Mosaica, contando com a colaboração da Caminho Coop, responsável pela representação da equipa portuguesa.

Testemunho coletivo sobre o projeto “Conscious Bodies and E-ntimacy

A formação centrou-se no desenvolvimento de competências para a intervenção junto de jovens em contextos digitais, com especial enfoque em temáticas sensíveis relacionadas com a intimidade online. Num mundo cada vez mais mediado pela tecnologia, onde a presença digital se cruza constantemente com a vivência pessoal e emocional, torna-se urgente capacitar os profissionais para apoiar os jovens na construção de relações
digitais mais seguras, conscientes e saudáveis. Durante os dias de formação, participamos em diversos workshops desenvolvidos com base na metodologia da educação não-formal, privilegiando a aprendizagem experiencial, o trabalho em grupo e a reflexão crítica. Uma das características mais marcantes deste curso foi a liberdade que nos foi dada para explorarmos os temas de forma autónoma e colaborativa.

A proposta formativa incluiu uma profunda “viagem” por sete “ilhas digitais”: revenge porn, sexting, cyberbullying e erotismo com IA (deepfake), sextortion, partilha excessiva, grooming e perfis falsos em aplicações de encontros. Cada uma delas foi explorada através da criação de materiais colaborativos, como um glossário, vídeos explicativos e um manual prático. Esta abordagem permitiu não apenas absorver conhecimento, mas também transformá-lo em recursos acessíveis para jovens e técnicos de juventude em toda a Europa.

Deparamo-nos também com uma realidade preocupante: a falta de literacia digital que muitas vezes nos impede de agir com segurança nestes ambientes. Como refere Ari Moura:

“Percebemos que ainda não temos literacia e fundamentos suficientes que nos tornem fortes e capazes de evitar e solucionar problemas ou de, simplesmente, estar em algumas delas de forma segura. Estas ilhas digitais estão sobrelotadas, mas ainda nos faltam fundamentos e literacia para habitá-las em segurança. Criar um guia prático e visual, com várias perspectivas, da vítima, dos amigos, de técnicos, foi um passo essencial para a prevenção e intervenção realista.” 


A abordagem foi sempre feita num ambiente de escuta ativa e não julgamento. Como descreve Mafalda Rego: “Falámos sobre tudo isto sem qualquer tipo de julgamento. Mais do que proibir certas ações, é essencial entender como fazê-las de forma mais segura e, sobretudo, como agir se algo correr mal.”


Entre os momentos mais impactantes da formação, destaque para um workshop em que o facilitador colocava afirmações relacionadas com intimidade digital, género, limites pessoais ou consentimento. Os participantes eram convidados a posicionar-se fisicamente no espaço consoante o seu grau de concordância ou discordância. Esta metodologia — simples na forma, mas profunda no conteúdo — gerou um espaço de tomada de consciência individual e diálogo coletivo, onde diferentes perspectivas eram expostas e discutidas de forma aberta e respeitosa.


“Este exercício foi fundamental para perceber como as experiências pessoais, as normas culturais e os valores sociais influenciam a forma como cada pessoa interpreta a intimidade no ambiente digital.” — Gabriela Henriques.


A diversidade presente no grupo contribuiu significativamente para o aprofundamento dos temas discutidos. Participantes de diferentes países e realidades culturais partilharam histórias, valores e experiências que tornaram as conversas mais ricas e humanas. A troca cultural constante, presente tanto nos workshops como nas conversas informais, foi um dos grandes trunfos do projeto. Durante o tempo livre, também vivemos momentos de descontração e descoberta. Tivemos a oportunidade de conhecer Tivoli, explorar a Villa d’Este, passear pelo centro e pela zona do hotel, comer muita pizza deliciosa e gelados de todos os sabores possíveis. À noite, aproveitávamos o calor para conversar, rir e fortalecer os laços criados.


“Mal cheguei, percebi que estava no sítio certo. É incrível como se cria tanta proximidade em tão pouco tempo. Descobri pontos em comum e aprendi algo diferente com cada pessoa presente.” — Mafalda Rego.


Ao mesmo tempo, os conteúdos do projeto exigiam uma grande disponibilidade emocional. Falámos de vulnerabilidade, exposição digital, consentimento e dos riscos reais que muitos jovens enfrentam no ambiente online. Estas temáticas despertaram emoções fortes e obrigaram-nos a revisitar experiências pessoais, num processo exigente, mas profundamente transformador.


“A viagem por cada uma das ilhas foi intensa. Por isso, o trabalho por blocos e os momentos de feedback foram essenciais para haver espaço de foco e de valorização pessoal. Foi bonito perceber que todos estavam ali com o mesmo desejo: contribuir para um mundo digital mais seguro.” — Ari Moura.


O culminar do projeto foi a elaboração de um manual coletivo, pensado para ser um recurso duradouro e prático. Este material reúne estratégias de prevenção, intervenção e apoio para situações relacionadas com a intimidade digital, sempre com linguagem acessível e uma abordagem empática.


“Ter participado ativamente na elaboração deste manual foi, para mim, motivo de grande orgulho. Senti que o conhecimento construído se materializou num recurso com potencial de impacto real.” — Gabriela Henriques.


“É gratificante perceber que, em conjunto, criámos um alicerce que pode facilitar a comunicação digital entre todos, ensinando a estar prevenido com intimidade, a manter práticas seguras e a agir perante pedidos de ajuda.” — Ari Moura.


Esta experiência reforçou ainda mais a motivação de vários participantes para continuar a investir na área dos direitos humanos e no trabalho com juventude. Como conclui Gabriela Henriques:
“Pretendo, no futuro, aplicar os conhecimentos adquiridos em contextos educativos e sociais, contribuindo para a criação de espaços onde temas sensíveis como a intimidade, o consentimento e a cidadania digital possam ser abordados com responsabilidade, empatia e conhecimento.”


Por fim, entre tantos momentos marcantes, uma frase ouvida numa conversa informal ficou gravada na memória de todos: “O mundo de Erasmus+ significa sair da nossa zona de conforto para encontrar conforto numa realidade paralela, onde só precisamos de ser nós próprios e aprender ao nosso tempo.”