Publicado em: flye-project.eu
Autor: Caminho Coop — Cooperativa de Solidariedade Social
Projeto: FLYE (Financial Literacy for Innovative Youth Participation in Europe) | Erasmus+ Youth Together n.º 101186836
Projeto: este artigo faz parte do FLYE — Financial Literacy for Innovative Youth Participation in Europe.
Há um ponto de viragem na aprendizagem que não acontece na sala de aula convencional. Acontece quando um jovem percebe, pela primeira vez, que percebe de finanças. Que consegue ler um orçamento. Que sabe perguntar: como foi tomada esta decisão? E eu posso participar?
Foi a partir desta convicção — de que a literacia financeira e a participação cívica se ensinam e se aprendem fazendo — que a Caminho Coop estruturou, no âmbito do projeto FLYE, um percurso formativo intenso, diversificado e verdadeiramente europeu. Um percurso que começou com horas de formação e terminou, para muitos jovens, com uma perspetiva completamente diferente sobre o seu papel na sociedade.
Das Primeiras Horas de Formação a uma Nova Forma de Ver o Mundo
O WP3 do projeto FLYE — o pacote de trabalho dedicado ao desenvolvimento de competências — foi desenhado para ser ambicioso. Não se tratava de oferecer mais uma formação pontual sobre “como poupar dinheiro”. O objetivo era mais profundo: equipar jovens de seis países europeus com ferramentas reais de literacia financeira e com a capacidade de participar ativamente em processos de tomada de decisão sobre recursos públicos.
A Caminho Coop liderou diretamente duas das componentes centrais deste pacote. Através da tarefa T3.2, coordenou o programa de formação em orçamento participativo — 50 horas de conteúdo desenvolvido e testado em formato blended, combinando sessões síncronas online com encontros presenciais. A T3.1, dedicada à literacia financeira, somou mais 40 horas de formação. No total, entre as duas componentes, entre 30 e 56 jovens de seis países participaram nestas formações, dependendo da modalidade.
O formato blended revelou-se uma escolha acertada. As sessões online permitiram que jovens de Portugal, Eslovénia, Luxemburgo, Itália, Polónia e Chipre aprendessem em conjunto, criando pontes entre contextos muito diferentes. Mas foram os momentos presenciais — as conversas, os exercícios práticos, os debates sobre situações reais — que deram corpo e vida aos conceitos.
O que estes jovens aprenderam? A distinguir entre necessidades e desejos. A perceber como funciona um orçamento público. A compreender que o dinheiro coletivo é uma responsabilidade coletiva. E, acima de tudo, a ganhar confiança para perguntar, questionar e propor.
Itália: Quatro Dias Intensivos em Gorizia
Em novembro de 2025, a mobilidade internacional levou dois jovens portugueses e um youth worker da Caminho Coop a Gorizia, no nordeste de Itália. Durante quatro dias, num programa denso e imersivo organizado em parceria com os parceiros italianos do projeto (L’Isola e GECT GO), o grupo aprofundou as temáticas centrais do FLYE num ambiente completamente diferente do habitual.
As sessões em Gorizia combinaram formação teórica com exercícios práticos de facilitação e simulação. Os participantes trabalharam sobre literacia financeira aplicada, aprofundaram os mecanismos do orçamento participativo e treinaram competências de facilitação de grupos — ferramentas essenciais para quem, de volta ao seu país, iria liderar processos participativos com outros jovens.
Gorizia tem uma particularidade simbólica relevante: é uma cidade-fronteira, dividida durante décadas entre Itália e a então Jugoslávia, hoje partilhada com Nova Gorica, do lado esloveno. A mobilidade aconteceu num lugar que é, em si mesmo, um testemunho vivo de como a cooperação europeia pode transformar divisões em pontes. Para os jovens participantes, este contexto não foi indiferente.
Chipre: Democracia em Jogo
Janeiro de 2026 trouxe um novo destino: Nicósia, no Chipre. Dois jovens portugueses e um youth worker da Caminho Coop participaram numa mobilidade de dois dias centrada numa metodologia inovadora: a simulação gamificada de uma assembleia democrática.
A componente de gaming — desenvolvida no âmbito da tarefa T3.2 e implementada com os parceiros cipriota CIP — colocou os participantes no papel de representantes de uma assembleia municipal fictícia com um orçamento real para distribuir. As decisões eram fictícias, mas o processo era genuíno: negociar, ceder, argumentar, construir consensos.
O que esta simulação revelou foi algo que a formação teórica raramente consegue transmitir com a mesma força: a democracia é difícil. Tomar decisões sobre recursos escassos implica escolher — e escolher significa que alguém fica de fora. Compreender isto, de forma experiencial, é um passo fundamental para que os jovens se tornem participantes mais conscientes e mais exigentes.
A experiência em Nicósia foi também um encontro entre jovens de diferentes países europeus que, apesar de contextos políticos e económicos distintos, partilhavam uma convicção comum: querem ter voz nas decisões que afetam as suas comunidades.
O Que Fica Depois das Mobilidades
É frequente perguntar, após um programa de mobilidade internacional: e depois? O que muda? A resposta, no caso do FLYE, é que as mobilidades não foram um fim em si mesmas. Foram um passo numa sequência deliberada.
Os jovens que participaram nas formações e mobilidades regressaram com ferramentas, com redes de contacto europeias e, muitas vezes, com uma perspetiva renovada sobre o que é possível. Esse retorno não ficou guardado em gavetas: na fase seguinte do projeto, esses mesmos jovens passaram a ser parte ativa dos processos de orçamento participativo que a Caminho Coop está a implementar em Portugal.
A literacia financeira, quando é ensinada desta forma — através da experiência, do diálogo entre pares, da aplicação prática —, deixa de ser um conjunto de regras sobre como gerir o dinheiro pessoal. Torna-se uma ferramenta de cidadania. Uma forma de perceber como o dinheiro público circula, quem decide sobre ele e como qualquer pessoa — independentemente da sua origem ou do seu nível de educação formal — pode e deve ter voz nesse processo.
É essa a ambição do projeto FLYE. E é essa a contribuição que a Caminho Coop está a construir, passo a passo, junto com os jovens portugueses que fazem parte deste percurso.
Este projeto é cofinanciado pelo programa Erasmus+ da União Europeia. O apoio da Comissão Europeia à produção desta publicação não constitui aprovação do seu conteúdo, que reflete apenas as opiniões dos autores.
Caminho Coop — Cooperativa de Solidariedade Social
